Regras da profissão

Site de advogado: o que pode e o que não pode escrever

Neste artigo

As frases que mais aparecem em site de escritório e podem dar problema no Conselho, com a versão reescrita de cada uma.

atualizado em 13 de agosto de 2026 6 min de leitura

Toda vez que audito a página de um escritório, encontro a mesma frase em alguma variação: alguma promessa de que o direito será garantido, o benefício será recebido, a causa será resolvida.

É a construção mais natural do mundo para quem quer transmitir confiança. E é provavelmente o problema mais comum em publicidade da advocacia, porque a comunicação do advogado é tratada como informativa, não como oferta comercial de resultado.

Já cometi esse erro. Escrevi páginas de escritório com promessa de resultado antes de entender a extensão da regra, e precisei reescrever depois. Este texto é o que eu queria ter lido na época.

Aviso necessário. Isto é orientação prática de quem constrói essas páginas, baseada nos princípios que organizam a publicidade da advocacia.

Não substitui consulta à sua seccional, que é quem responde em caso de dúvida específica.

As regras foram atualizadas nos últimos anos, então confirme a redação vigente na fonte oficial antes de decidir qualquer caso concreto.

O princípio, antes das regras

A lógica que organiza tudo é essa: a comunicação do advogado pode informar, mas não pode mercantilizar a profissão nem captar clientela como se vende produto.

Se você guardar só isso, acerta a maioria das decisões sozinho. Informar quem você é, o que faz, como trabalha e o que a pessoa precisa saber sobre o direito dela está dentro. Prometer, comparar, se anunciar como superior, transformar honorário em promoção e perseguir cliente está fora.

O resto deste texto é a aplicação prática disso nas frases que realmente aparecem.

As frases que mais criam problema, e como reescrever


Em vez de: “Garantimos que seus direitos sejam respeitados” Escreva: “Atuamos para que seus direitos sejam reconhecidos, com acompanhamento em cada etapa do processo” Por quê: a primeira garante desfecho, e desfecho de processo não se garante. A segunda descreve o trabalho, que é o que você de fato controla.


Em vez de: “Receba o benefício que você merece” Escreva: “Entenda se você tem direito ao benefício e o que é preciso para solicitar” Por quê: a primeira afirma o resultado como certo. A segunda responde exatamente o que a pessoa foi procurar no Google, e converte melhor.


Em vez de: “O melhor escritório de previdenciário da região” Escreva: “Atuação exclusiva em direito previdenciário desde [ano]” Por quê: superioridade comparativa não se afirma. Especificidade verificável convence mais e não cria exposição.


Em vez de: “Mais de 3 mil processos ganhos” Escreva: “Mais de [X] anos de atuação exclusiva na área” Por quê: número de vitórias transmite promessa implícita de resultado e é difícil de comprovar publicamente. Tempo de atuação é fato verificável e cumpre a mesma função de autoridade.


Em vez de: “Soluções jurídicas rápidas” Escreva: “Como funciona o processo e quais prazos costumam ser envolvidos” Por quê: “rápido” é promessa de prazo que não depende de você, e sim do Judiciário. Explicar o prazo real reduz frustração e constrói confiança.


Em vez de: “Consulta a partir de R$ X” ou “primeira consulta grátis” Escreva: “Agende uma conversa inicial” com o canal de contato Por quê: honorário como chamada publicitária mercantiliza o serviço. E a conversa sobre valor funciona melhor depois de a pessoa entender o que está contratando.


Em vez de: “Não perca tempo, sua causa pode prescrever hoje” Escreva: “Prazos que costumam ser decisivos nesse tipo de ação” Por quê: a primeira usa medo como gatilho de urgência. A segunda entrega a mesma informação como conhecimento, que é o que constrói autoridade.


Em vez de: “Fale agora com nossos especialistas” Escreva: “Fale com a equipe” ou “Converse sobre o seu caso” Por quê: o título de especialista tem sentido próprio e nem sempre se aplica. Além disso, “agora” empurra, e a comunicação da advocacia não persegue.


As categorias, para você julgar frases que não estão nesta lista

Promessa de resultado. Qualquer coisa que afirme ou sugira desfecho. Inclui a versão disfarçada, que não usa a palavra garantia mas trata o resultado como certo. É a mais comum de todas.

Comparação e superlativo. O melhor, o maior, o mais eficiente, o único. Além de vedado, é o tipo de frase que motiva denúncia de colega, que na prática é como esses casos costumam chegar ao Conselho.

Mercantilização. Preço em destaque, desconto, condição de pagamento como chamada, linguagem de varejo aplicada a honorário.

Captação agressiva. Texto que persegue, urgência artificial, contato insistente, abordagem de quem está em situação de vulnerabilidade.

Sensacionalismo e apelo ao medo. Usar o desespero da pessoa como alavanca de conversão.

Divulgação de caso concreto. Detalhar processo específico, mesmo sem nome, exige cuidado com sigilo e com a expectativa que aquilo cria.

O que continua permitido, e funciona melhor do que parece

A leitura de que a norma inviabiliza a comunicação do advogado está errada. Ela tira o repertório de venda agressiva e deixa exatamente o que constrói autoridade em serviço jurídico:

  • Explicar o direito em linguagem comum. Quem tem direito ao benefício, o que a lei mudou, o que fazer quando o pedido é negado. É o conteúdo mais procurado e o menos produzido com qualidade.
  • Mostrar como funciona o atendimento. O que acontece na primeira conversa, quais documentos são necessários, quem cuida do quê, quanto tempo cada etapa costuma levar. Esse é o conteúdo que mais gera contato, porque o maior medo de quem procura advogado é não saber o que vem depois.
  • Apresentar formação e experiência verificáveis. Onde estudou, há quanto tempo atua, em que áreas.
  • Responder perguntas frequentes sobre a área de atuação.
  • Identificar o profissional e a sociedade com o registro.
  • Publicar conteúdo informativo com regularidade. É o caminho de autoridade que a norma admite e que o Google recompensa.

O checklist da sua página

Abra o site do escritório e confira:

  • Nenhuma frase garante ou afirma resultado
  • Nenhuma comparação com outros profissionais ou escritórios
  • Nenhum superlativo de superioridade
  • Nenhum número de causas ganhas
  • Nenhum honorário, desconto ou consulta grátis como chamada
  • Nenhuma urgência artificial ou apelo ao medo
  • Nenhum texto de botão que prometa desfecho
  • Identificação profissional completa, com inscrição
  • Explicação do direito em linguagem comum
  • Passo a passo do atendimento
  • Perguntas frequentes da área
  • Depoimentos revisados quanto a sigilo e expectativa de resultado

O item que mais falha é o sétimo. O texto da página é revisado com cuidado e o botão continua dizendo “garanta seus direitos”, porque ninguém pensa no botão como texto.

Uma observação sobre quem escreve

A responsabilidade pela publicidade é do advogado, não de quem constrói a página. Quem faz o site tem o dever de avisar, mas quem responde perante o Conselho é você.

Por isso vale contratar quem conhece a regra, e revisar antes de publicar. E vale desconfiar de proposta de agência que promete “página de alta conversão” para advocacia sem mencionar nenhuma restrição: essa página provavelmente vem com o repertório inteiro de venda agressiva, e o problema vai ser seu.

Perguntas frequentes

O que é permitido na publicidade do advogado?
A comunicação pode ser informativa: quem você é, sua formação, suas áreas de atuação, como funciona o atendimento e conteúdo que explique o direito para o público. O que não se admite é o caráter mercantil e a captação de clientela, o que exclui promessa de resultado, comparação, superlativo, honorário como chamada e urgência artificial. Confirme a redação vigente na fonte oficial, porque ela foi atualizada nos últimos anos.
Advogado pode dizer que é especialista em alguma área?
O uso do título de especialista tem requisitos próprios e nem toda formação autoriza o uso do termo. Na dúvida, descrever a área de atuação resolve o mesmo problema de comunicação sem risco: dizer que a atuação é exclusiva em determinada área informa tanto quanto e é verificável.
Pode divulgar número de processos ganhos?
É arriscado. Número de vitórias transmite promessa implícita de resultado, que é justamente o que a norma quer evitar, e é difícil de comprovar publicamente. Tempo de atuação e área de especialização cumprem a mesma função de autoridade sem esse problema.
Pode usar depoimento de cliente no site?
Depoimento exige cuidado com dois pontos: o sigilo profissional e a expectativa de resultado que ele cria. Depoimento que fala do atendimento, da clareza e do acompanhamento é terreno mais seguro do que depoimento que celebra o desfecho de uma causa.
Quem responde se a página estiver irregular?
O advogado. Quem constrói o site tem o dever de avisar, mas a responsabilidade pela publicidade profissional é de quem exerce a profissão. Vale revisar o texto antes de publicar, inclusive o texto dos botões.
Próximo passo

Análise da presença digital

Me manda os seus links. Eu olho a sua presença atual e te digo por onde começar.